nove poemas

quando me recordo de você
não penso em coisas
como a roupa
que você usava
no dia em que te conheci
evoco a sua pele
tocada incansavelmente
por quem não poderia
reviver o seu cheiro

então eu te passeava
fazendo bicicleta
com as mãos
e com os pés em você
corria
um trajeto por dia
até descobrir
que meu corpo finalmente
aprendeu a caminhar
devagar
e pouco a pouco
subiam e desciam as pernas
que nem gostavam
de percorrer ladeiras.

o cheiro que habita o canto
atrás da sua orelha esquerda
e a distância exata entre a
ponta dos meus dedos e a sua
pele com meus pés deslizando
pelas suas pernas em baixa
v e l o c i d a d e
enquanto o quarto nos tranca
e abafa nosso calor capaz de
acender uma espécie inteira
e provocar incêndios mentais
que me fizeram queimar uma
panela novinha cheia de feijão.

depois de
cinquenta e dois domingos
você decide romper com a ilusão
pois os outros dias te enganam
como as revistas e as suas capas
e as bocas de traços perfeitos
das propagandas de batom
mas os domingos são verídicos
feito aquele batom roxo
que eu passo todo borrado
feito a saudade
que grita sozinha
dentro das populações
feito o barulho que ela faz
capaz de te fazer vomitar
e você tenta colocar pra fora
a própria ilusão
mas ela te ilude ao ficar
quando manda poemas em seu lugar.

cantiga para osálufàn

Vem de branco, não só na sexta feira
Maresia no corpo, cheirodor
Vem na onda, veleja a vida inteira
A cabeça é sopro aonde for

Devagar, passo a passo, caminhar
Sente o peso do mais velho ser
A coluna abaixou pra descansar
Sua cabeça, um pano vai querer

A janela abriu e ele entrou
Assoprando a brisa que me deu
Marinheiro do mundo, mergulha a dor
Veja onde seu branco se meteu.

desde que fui embora da nossa casa
vi as paredes, as telhas e o chão
deixarem de ser uma grande cabana
para virar material de construção

nem parece que um dia já se abriram
as portas que estão sempre cadeadas
não há chave que continue a girar
se as janelas já foram derrubadas

não precisa de grade ou de portão
de concreto só o cimento sufocado
o que antes era vivo e ocupado
morreu sem dar nenhuma explicação.