cantiga para osálufàn

Vem de branco, não só na sexta feira
Maresia no corpo, cheirodor
Vem na onda, veleja a vida inteira
A cabeça é sopro aonde for

Devagar, passo a passo, caminhar
Sente o peso do mais velho ser
A coluna abaixou pra descansar
Sua cabeça, um pano vai querer

A janela abriu e ele entrou
Assoprando a brisa que me deu
Marinheiro do mundo, mergulha a dor
Veja onde seu branco se meteu.

desde que fui embora da nossa casa
vi as paredes, as telhas e o chão
deixarem de ser uma grande cabana
para virar material de construção

nem parece que um dia já se abriram
as portas que estão sempre cadeadas
não há chave que continue a girar
se as janelas já foram derrubadas

não precisa de grade ou de portão
de concreto só o cimento sufocado
o que antes era vivo e ocupado
morreu sem dar nenhuma explicação.

arco reflexo

fiquei presa mais uma vez
dentro das suas surpresas
meus fragmentos se espalharam
por todos os cantos
de norte a sul de mim

meu único pedaço frio
foi o cérebro
que você deixou dividido
em partes desequilibradas
a metonímia dos olhares alheios
la parte per il tutto
uma fatia congelada
de quem possuía
a mais alta temperatura
em sua pele

eu nunca soube
quantos neurônios
moravam dentro de mim
até começar a perdê-los
passo a passo
como dois desconhecidos
que tropeçaram na multidão
o número 1 se cortou
e foi embora
com o joelho ferido
sem olhar para trás

descobri que era cabo
o verdadeiro nome
daquilo que eu seguramente
chamava de músculo
pois quando meu crânio se despedaçou
foi como se cortassem a energia
do computador central
que comanda todos os fios condutores
menos os da minha mão
que ainda funcionam
enquanto te escrevo esse poema

sinto saudades do lado esquerdo
e também do lado direito
ainda permaneço hemisferiada
mas agora em antes e depois de ti

o amor é mole
feito um pudim empedrado
e não divide por igual
talvez o meu sistema
não seja nervoso de nascença
ele apenas não encontrou a calma
depois de várias tentativas
de administrar o sangue
vindo de um coração
que perdeu a cabeça.