coração despovoado

eu poderia dizer como é andar dentro de um ônibus cheio
ao lado de vários carros vazios
poderia escrever detalhadamente sobre o sol penetrando a minha pele
sem precisar me resumir somente à palavra sensação
poderia contar que existem mais de quarenta tipos de plantas
no meu quintal
e dizer que ele é o que me cabe do céu
eu poderia falar durante anos
sobre toda violência que uma pessoa sofre
somente por ser mulher
talvez eu fique um pouco nervosa e a minha boca seque
ou eu realmente não tenha saliva para falar tanto assim
pois o meu cansaço será mais forte do que os meus órgãos
que pulsam
porém não mais do que a minha vontade de lutar
eu poderia narrar todas as minhas experiências na cozinha
enquanto, simultaneamente, pensaria sobre todas as pessoas
que jamais poderão escolher o que comer
poderia falar sobre a guerra e sobre a tortura
e que não há nada pior do que combater
quem está do mesmo lado da trincheira
diria que odeio canaviais
e que toda vez que passo por eles meu estômago aperta
mas não conseguiria me prolongar
eu deveria dizer que alguém sempre varrerá a sujeira
mas com certeza eu diria que se você perder um braço
passará a vida inteira sentindo dor
no espaço vazio de um membro que já não existe mais
e pensaria em todos os corações despovoados que ainda doem
pois não há ninguém, além da partida, fazendo morada
eu poderia imaginar os desejos agarrados
de quem nunca pode se desprender
e entenderia que isso não é uma opção
em seguida, diria que quarenta horas semanais de trabalho
uma casa e duas filhas não podem ser os únicos sonhos de uma mulher
eu poderia falar da solidão
e de casais que conversam entre todos menos entre si
eu poderia falar da tristeza e que às vezes ela consegue ser tão forte
que não há nada que te faça rir
eu poderia falar sobre tudo isso
menos sobre a ausência de invenção e sobre o esforço
de pensar sobre qualquer outra diferente coisa, mas é sempre você.

Anúncios

rasguei todos os meus poemas velhos
depois amassei folha por folha
enquanto arremessava para bem longe os cadernos
e não tinha tempo nem de refletir
que eu estava finalmente usando o verbo arremessar
e essa era a minha primeira vez

se pudesse vestiria as minhas palavras
com roupas nobres e joias raras
e tudo de oneroso que você odeia
elas caminhariam banhadas a ouro e clichês
pela sua rua às 11h da manhã
e permaneceriam em pé o dia inteiro
não iriam recorrer à sombra
embaixo das árvores que aliviam seus dezembros e janeiros
tampouco se sentariam para diminuir o cansaço
pois fariam greve de descanso em forma de protesto
até você aparecer

mas você disse não

e essas palavras jamais conseguiram encontrar as outras
nada além de greve e protesto
e fadadas à mesmice de uma existência previsível
só lhes restava morrer

como matar uma palavra depois que ela já nasceu?

sempre achei que a morte das palavras
precedia o seu nascimento e viria antes mesmo de sua vida
a passagem de ar que vem dos pulmões
e anda pela garganta e depois pela laringe
ou anda pela laringe e depois pela garganta
já que eu nunca soube qual das duas vem primeiro
e desliza pela língua e bate no dente
e gira dentro da boca e se esbarra nos lábios
que não se abrem para pronunciar o sim

imediatamente tento engolir os meus
e enterrá-los no chão da barriga
para que eu só possa te dizer o não
e como você pode ver agora
eu já te disse dois apenas nessa estrofe
e talvez eu não esteja tão sozinha
como imaginei que estaria sem você
ao lado de linhas e mais linhas de páginas sem letras
pois eu rasguei todos os meus poemas velhos.

Cartografia afetiva do mar

os rastros que deixei na areia
sumiram pouco a pouco
a brisa em você
fazia furacão em mim
tapando todos os buracos
deixados pelos meus pés
cansados
de tanto afundar
e se perder na praia

do farol até o fim do mundo
tem muita água salgada
das ondas que vão e vem
e se misturam com o meu suor
que de gota em gota
cai
goteja
feito as lágrimas
de quem encontrou o refúgio
que tanto procurava

atalaia me observando
mas eram os seus olhos
guardados numa gaveta emperrada
dentro do meu coração
que me faziam continuar

na minha cabeça
eu desenhava todos os dias
a coroa do meio
e percebia
que as únicas curvas fáceis
eram as suas

inundei inteira
uma rodovia
de náufragos
que afundaram
junto com a minha embarcação

mas depois do banho doce
te encontrei na aruanda
e mergulhada
eu te dizia
que quem carrega
o nome Maria
leva o mar
dentro dele.

Ato de libertar impurezas

É de praxe falar que rato é um animal que não gosta de trabalhar. Mas pouco é sabido sobre a sua vida dentro da toca, que os humanos carinhosamente chamam de quatro paredes. Os ratos, quase sempre traiçoeiros e raramente confiáveis, passam dias e mais dias enfurnados em seus esconderijos, completamente entregues aos seus ofícios – que ao contrário do que muitos pensam, são executados também por querer, não somente por obrigação. Trabalham tanto, que são vistos apenas à noite quando saem para comer ou para ver a cidade. Eles adoram quando o sol termina o expediente e coloca as estagiárias para trabalhar em seu lugar. Segundo eles, as estrelas desempenham muito bem essa função. Também é dito com muito vigor que roedores são bichos de rua, vulgares, promíscuos e sem amor. Mas poucos enxergam, com seus olhos tão humanos, a vida nas poças de águas sujas. Seus óculos de graus possuem lentes muito sensíveis para tamanha imundície, por isso preferem os passeios em lagos artificiais que são abençoados pela Santa Câmera, protetora das fotos de encontros amorosos. Os ratos só fazem o que a vontade diz e repudiam manias humanas, geralmente endeusadas, como também não gostam de palavras como moral e costumes. Eles não se acostumam a nada. Há quem diga que dentro de um animal tão pequeno não cabe um coração ou até mesmo que dentro de um coração tão pequeno não caiba amor. Um grande amor. Regra sombria essa, que legitima o amor das demonstrações públicas em lugares virtuais e coloca ratoeiras para taparem a passagem de ar daqueles que perdem o fôlego de tão mordidos. Cansados, eles suspendem o carnaval de denguinhos e põem-se a dormir. Acordam felizes no dia seguinte, pois viverão mais um dia ao lado dos seus, contrariando as expectativas alheias que só os veem como ratos, enquanto eles dizem no ouvido um do outro o quanto é bom ser ratinho.