Para que nunca se esqueça

Colonizaram o nosso país
Invadiram as nossas mentes
Dominaram a nossa quebrada

Mas conquistamos independência
Porque a nossa revolta
Também é armada

Os cadernos viraram escudos
E as canetas, munição
Enquanto derramam o nosso sangue pelas ruas
A gente transforma as nossas lágrimas em ação

Dizem que estamos paradas
E que pobre não presta pra nada
Respeitem os calos dos nossos pés!
Andamos muito, não tivemos tempo
Pra ficar esperando sentada

Falam que somos a pior coisa
Que existe dentro da cidade
Mas sabemos o que é que fede
E o que é o verdadeiro lixo dessa sociedade
Estamos vendo merda e sujeira todos os dias
Mas ainda não encontramos nada tão podre
Quanto a burguesia

Sabemos do que somos capazes
Pois antes de vocês
Nós já estávamos por aqui

Homens brancos e ricos
Exterminadores da nação
Destruíram a nossa cultura
E a matança foi chamada de salvação

Enquanto vocês passaram cinco anos
Na faculdade de engenharia civil
Nossa sabedoria ancestral nos fez mestres de obras
Muito antes dessa terra ter o nome de Brasil

Falam que a nossa produção não tem qualidade
Mas foram as nossas mãos
Que levantaram toda essa cidade

PARA QUE NUNCA SE ESQUEÇA!

Não foram as balas de borracha
Que apagaram a nossa história
Foram tiros de metralhadora
Que ainda ecoam na nossa memória

É muito fácil você vir me dizer
Que eu só falo de dor e de violência
Se pra você que mora na 13 de julho
O sinônimo de luta é estender uma bandeira
Na janela da sua “humilde” residência

Vocês têm medo, por isso não saem dos seus prédios
Passam a vida dentro de carros
Com vidros fechados
Mas saibam que é privilégio
Ficar reclamando do tédio

Vocês nem sabem o nome do bairro
Onde moram as suas empregadas
“ela é como se fosse da família”
Mas enquanto cês tão na mesa
Ela tá sentada no chão
Comendo os restos do patrão

Deixamos de ser submissas
Agora somos nós
As protagonistas das nossas vidas
Criaremos um novo destino
Jamais visto na terra
Vamos trazer a nossa versão dos fatos
Por que dessa vez
Nós é quem vamos vencer a guerra.

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matiz resultante

estudei
durante
cinco
anos
a melhor tinta
para
apagar
seu
nome
pela cidade inteira
comprei
látex
e
acrílica
pincel bisnaga e bastão
risquei
ao meio
o coração
e até lavei com água e sabão
o
último
rastro
vermelho
escrito no canto da prateleira.

hospedeira

queda d’água
rebentando da cachoeira
cheiro que explode
antes de jorrar

parece que as pedras
foram colocadas a dedo
nossos movimentos
em ordem circular

rio em chamas
quer engolir o mundo
lavas da nascente
vulcão a nos afogar

nossas brasas acesas
parecem cinzas
cigarro deixado de lado
antes de apagar

buraco de mofo
em paredes vizinhas
que abre caminho
para atravessar

células hospedeiras
metabolismos independentes
organismos em erupção
batimentos a palpitar

o corpo sem fôlego
cansa
e expulsa o ar

a noite sem ruídos
suspira
neste lugar.

mate o tempo

duzentas horas é um tempo suficiente para fios de cabelos cacheados saírem voando por aí. percebi que os fios de cabelos têm tempos diferentes. os meus, por serem escorridos, acabam deslizando pelo chão das coisas com mais facilidade. e saem. talvez por isso eu tenha deslizado tão rápido por você. seus fios fazem várias voltinhas e feito cobra, quando encontra a sua presa, eles se enrolam naquilo que encontram pela frente. logo eu, conhecedora da minha espécie, me vejo perdida tentando lidar com o bote. encontrei um fio seu enrolado num parafuso da parede do meu banheiro. se não tivesse sido arrancado, permaneceria ali por infinitas horas. bem mais do que duzentas. queria que você deslizasse de mim feito os meus fios de cabelo. seus fios e você, mantêm-se espalhados por lugares que a vista não alcança. quando eles aparecem, descubro que a tranquilidade perdura enquanto não te vejo, mesmo sabendo que você está por aqui o tempo inteiro.

a noite nunca dorme

Meu bem, quando você me diz:
tente dormir
Penso no ventilador girando bem na nossa frente e que não tenho como colocá-lo um pouco mais para trás. Pois as paredes daqui de casa são muito finas, tanto o som como o sol invadem o quarto inteiro. Enquanto as hélices giram, a minha garganta seca. Percebo que a água acabou e que ainda não sobrou dinheiro para comprar um filtro e que talvez a água só seja potável no mês que vem.
Meu bem, quando você me diz:
tente dormir
Deduzo que se estivesse dormindo não sentiria sede e não estaria pensando em desenvolver alguma método mirabolante para aliviar securas. Talvez eu pudesse estudar sobre técnicas e desenvolvimento de poemas para esquecer o gosto da água da torneira. Talvez se o saneamento deixasse de ser básico e fosse sportchiq, não precisaríamos nos preocupar com isso e além de beber a água da torneira, beberíamos também da água do chuveiro enquanto tomaríamos banho e as gotas iriam deslizar devagar pelas suas costas. Paro de olhar para você, pois os seus olhos sorriem enquanto uma outra gotinha escorre do lado esquerdo do seu rosto.
Meu bem, quando você me diz:
tente dormir
A minha cabeça aperta. Abri a caixinha de ferramentas, que fica guardada lá no quintal, para verificar se todos os pregos estavam lá, restavam apenas dois. Também não encontrei o martelo e estou até agora tentando entender como posso ter esquecido onde eles estão se passo o dia inteiro ouvindo a minha cabeça martelar. Mainha dizia que eu escasquetava com as coisas e não largava nunca mais, talvez sejam os pregos da parede da memória.
Meu bem, quando você me diz:
tente dormir
Olho para o lado e vejo que você, ao contrário de mim, dormiu. Que há alguns minutos atrás você me dizia de forma discreta, como quem já sabe a resposta do que vai perguntar, como quem não quer incomodar, mas poucas coisas incomodam tanto quanto a fome. Tem alguma coisa pra comer, aí? Nesse momento acabei ficando sem jeito e depois de pronunciar o não, te peço com os olhos marejados e com zelo:
meu bem, tente dormir.

amor de mulher

A mulher que eu amo
divide o mundo comigo
é casa, é rua, é bar
é abrigo
travesseiro compartilhado na cama
é bonita a rotina
ao lado de quem se ama

A mulher que eu amo
espalha sua voz por onde passa
seja nos palcos com microfone
ou descalça, no meio da praça
sua arte não é só talento
é estudo, dedicação
potência não se resume
a uma mera atração

A mulher que eu amo
espalha pelo rosto
os seus cabelos
ativa poderes espaciais
e ganha força
sentindo a conexão
com as suas ancestrais

A mulher que eu amo
por amar outras iguais
é cobrada o tempo inteiro
e por ser negra
a querem viva
mas trancada em cativeiro

A mulher que eu amo
é grande e infinita
escreve a sua história
cantando a própria vida
sem amarras
trocou as notas de avaliação
por acordes e mãos livres
que passeiam pelo seu violão.